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Na do Alberto Gonçalves. Ideias Feitas, sempre com a assinatura do Alberto Gonçalves. Alberto, Mário Machado foi preso outra vez. Olá.

É verdade. Olá, Vanessa, boa tarde. Ontem a polícia foi à casa do senhor Mário Machado e levou-o para a prisão. Ele vai iniciar o cumprimento da pena efetiva de dois anos e 10 meses. É uma pena a que ele foi condenado por crimes de, e cito: "Discriminação, incitamento ao ódio e à violência". A base disto foram umas mensagens publicadas no antigo Twitter, no X, em 2022. Eu não vou reproduzir o conteúdo das mensagens, obviamente, mas envolviam umas alarvidades sobre mulheres de esquerda e prostituição. Agora, apesar disso, eu confesso a minha estranheza pelo zelo dos tribunais e pelo exagero da sentença. Eu não conheço o senhor Mário Machado, devo dizer desde já, de lado nenhum, e não quero conhecer. Eu sei dele o que toda a gente, em princípio, sabe: o seu passado como skinhead, esteve envolvido em uma série de trapalhadas ilícitas. Foi condenado anteriormente por essas trapalhadas e, pelos vistos, essas condenações também agravaram a sentença atual. Não é esse o ponto. O ponto aqui não é o que eu penso do senhor Mário Machado. O ponto é prender-se alguém por palermices partilhadas nas redes sociais. É que isto abre caminho a uma de duas realidades, e nenhuma dessas realidades é agradável. Ambas são assinaladamente horrorosas. A primeira hipótese é o senhor Mário Machado ser apenas um primeiro caso de condenações e detenções do gênero e, no fundo, uma porta que se abre para que nos próximos tempos se enfie na cadeia todo e qualquer indivíduo que publique uns palpites heterodoxos no X ou no Instagram. Não sei se haverá no país estabelecimentos prisionais que cheguem. O que haverá de sobra é medo, medo de se fugir à ortodoxia e medo de acabar a partilhar a cela com o senhor Mário Machado ou com outros criminosos que emitiram umas opiniões. E é muito triste vivermos numa sociedade em que o medo é mais forte que a liberdade de expressão. Uma liberdade que, pelo menos da última vez que eu vi, incluía o direito de dizer palermices. E depois há a segunda hipótese, que é bastante mais provável, que é limitar as detenções e as condenações apenas às palermices que possam configurar os tais crimes de ódio. E neste caso, põe-se um problema: quem decide? Eu já sei que são os juízes. O juiz decide. Mas aparentemente os juízes têm critérios de decisão peculiares, porque há pelas redes sociais, e se me pedirem eu dou exemplos, há abundantes casos de criaturas devidamente identificadas, muitas delas a desejar a morte a políticos, por exemplo, desejar a morte a políticos da alegada extrema-direita e até aos eleitores dessa alegada extrema-direita, e até ver ninguém foi preso por causa disso. E ainda bem. Isto só para falar na política nacional, quer dizer, noutros ramos, sei lá, o futebol, por exemplo, o que não falta nas redes são incitamentos ao ódio e à violência. E não vem daí, e ainda bem, mais uma vez, detenções e processos judiciais. O que se permite inferir daqui é que o poder está apenas empenhado em calar um determinado tipo de opiniões, as quais, por estúpidas que sejam, não diferem na essência de outras opiniões estúpidas com que aparentemente o poder não se incomoda. Quer dizer, num mundo permissivo e razoável, como aquilo que tínhamos ainda há 10 anos ou há 15 anos, ou há 20, as opiniões, que podem ser estúpidas para mim e sensatas para o meu vizinho, ou vice-versa, não precisavam de ser avaliadas e medidas de acordo com as simpatias e as antipatias do sistema. As opiniões existiam e pronto, e daí não vinha mal nenhum. Infelizmente, o mundo de hoje está longe de ser esse mundo razoável. A Europa, em particular, ameaça vir a ser um lugar de total medo, de que falei há pouco, de censura e de sombras. E o difícil nisto é começar, porque depois as sombras e as censuras alastram-se sem dificuldade. Para terminar, Vanessa, vou só dar o exemplo do Reino Unido, para citar um caso particularmente dramático de uma civilização em ruínas, porque no Reino Unido, sob a égide agora dos trabalhistas, mas nos anos anteriores dos conservadores, tem havido entre 3 mil e 12 mil detenções anuais relacionadas com, e cito: "Comunicações eletrônicas ofensivas". Normalmente, não todas, mas normalmente ligadas às redes sociais. Destas detenções ou prisões, mil ou 2 mil por ano resultam em condenações, ou seja, há mil ou 2 mil pessoas presas em Inglaterra, no Reino Unido, por emitirem opiniões. Se é isto que queremos para cá, muito bem, isso será então nosso futuro. E se é este o nosso futuro, o futuro é negro. E eu espero que isto não seja interpretado como uma piada racista, porque não é. Mas hoje em dia a gente nunca sabe.

Mário Machado e o fim da liberdade de expressão é o título do Ideias Feitas. Fica sempre disponível no site do Observador, já sabe, e também nas plataformas de podcast. Alberto, dois dias de descanso. Até segunda-feira.

Até segunda, Vanessa. Bom fim de semana.

Bom fim de semana.

O Ideias Feitas conta com o apoio do azeite Talismã.